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Sobre crianças e vocação

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 9 de setembro de 2021
Sobre crianças e vocação
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Meu segundo filho nasceu em janeiro desse ano. Algo que me fascina desde então é constatar as diferenças de personalidade entre ele e a irmã mais velha.

Há quem entenda que uma criança vem ao mundo como uma folha em branco. Aos que pensam assim, digo: tenham filhos ou acompanhem de perto a primeira infância de alguém.

Cada ser humano vem ao mundo com uma personalidade única. Alguns traços que compõem essa identidade não serão modificados ao longo da vida. Não somos barro sem forma esperando que o mundo nos modele.

O contato com essa realidade me faz refletir sobre a descoberta da vocação.

Na contramão de um discurso corrente, acredito que não temos escolhas ilimitadas. Somos frutos das nossas circunstâncias e, sobretudo, da nossa personalidade.

Dois exemplos pessoais. Ainda que eu adore correr, não tenho as características físicas nem o talento para almejar um desempenho minimamente próximo ao de um atleta profissional. Mesmo que eu treinasse muito para isso. Eu tenho algum talento para a música, que me permitiu participar de bandas e dar aulas para iniciantes na juventude. Sempre soube, no entanto, que não alcançaria a técnica dos artistas que eu admirava.

Não, nós não podemos ser tudo que queremos.

Lá no fundo, todos nós sentimos que temos uma tarefa a cumprir nessa vida, uma vocação a ser desenvolvida. Podemos fugir dessa intuição, mas sabemos que ela está lá.

Os momentos em que ignorei os caminhos que reconhecia como meus e pautei minhas decisões por expectativas externas resultaram em sofrimento e desencanto. Pessoas sabotando a própria biografia podem ser vistas o tempo todo ao nosso redor.

Alguém que nasceu para cuidar da saúde dos outros, para compor canções, para cuidar dos filhos ou administrar uma empresa, mas não faz isso, desiste da própria essência e daquilo que poderia vir a ser.

Nossa melhor contribuição para o mundo está na descoberta de quem já somos, somada ao esforço para criar as condições de explorar essa vocação até a excelência. Os gregos tinham uma palavra para isso, aretê. Para eles, a nossa contribuição para o equilíbrio do universo estava em perseguir esse chamado.

Meus erros e acertos sopram nos meus ouvidos que os gregos estavam certos. Uma vida boa é aquela em que nos tornamos o que temos de ser.