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Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 12 de julho de 2021
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Conto de Kaio Serrate

Fui acordado por um telefonema ainda era madrugada. Minha mãe com a voz embargada deu a notícia: minha avó havia falecido.

Caminhei até o banheiro para lavar o rosto e absorver aquelas palavras. A família havia perdido sua principal referência.

Eu tinha trinta e quatro anos naquela época. Era o neto que havia saído da nossa pequena cidade para estudar e alcançar o sucesso na capital. “Meu Deus, isso foi há quinze anos!” A vida havia passado como um filme acelerado.

Reencontrava a família nas datas festivas, duas ou três vezes por ano. Não mais que isso.

Separei algumas roupas, joguei-as na mala que usava para as viagens de trabalho e peguei a estrada. Teria de quatro a cinco horas pela frente para refletir sobre o ocorrido. Eu gostava de ouvir música alta toda vez que cumpria aquele trajeto. Viajei em silêncio dessa vez. Queria apenas pensar.

O sentimento era de tristeza, mas todos estavam conformados. Morreu em casa. A dor aguda veio enquanto lavava a louça do jantar. Chegou a ser levada para o hospital, mas não resistiu. Um infarto no miocárdio colocou o ponto final em sua existência. Noventa e três anos bem vividos.

Eu pensava quantas coisas havia aprendido com ela.  Minha mãe trabalhava demais para garantir nosso sustento. Minha avó, desde a primeira infância, fora a personagem central da minha biografia.

Lembrei-me do bolo de cenoura quentinho, tirado do forno logo que sentávamos à mesa para o café da manhã. A casa da vovó era o ponto de encontro dos parentes e amigos que iam até o centro da cidade. Um lar que recebia as visitas com boa conversa e um cafezinho passado na hora. Não importava a hora. Ela rezava o terço baixinho, quase todos os dias, sentada no baú aos pés da cama. Todos falavam dela com afeto. Eu sabia que os próximos dias seriam intensos.

Vovó era a professora de piano mais antiga da cidade. Havia ensinado pelo menos três gerações de aspirantes a musicistas. As aulas de piano eram outra recordação viva. Acompanhei o aprendizado de muitos alunos enquanto colocava em dia os deveres da escola ou brincava pelo chão. Foi o meu despertar para a beleza que existe no mundo. Um pouco pela música, um pouco pelas relações que se estabeleciam entre a mestra e seus aprendizes.

A vocação de uma vida não foi uma escolha consciente. Vovó contava ter aprendido piano na mocidade com uma professora francesa que visitava o distrito um ou dois dias por semana para lecionar. Meu bisavô, que não conheci, era um amante das artes e havia economizado durante anos para comprar um piano Albert Schmolz. A menina casou cedo e levou o piano consigo. Logo vieram os filhos e a necessidade de complementar a renda familiar. Passou então a ensinar música aos jovens no lugar da professora francesa, que já era idosa e desapareceu sem deixar rastro. A música seria uma companheira para toda vida.

Cheguei de viagem e fui direto ao velório. Deu tempo de acompanhar a oração e o discurso emocionado puxado pelo querido Tio Dedé, irmão mais velho da vovó.

As horas foram passando e a notícia se espalhando. Amigos e conhecidos começaram a chegar. Todos tinham uma história para dividir conosco. Eram histórias de carinho e gratidão.

A tarde avançava quando avistei Estevão, um velho amigo de infância, e o convidei para um café na padaria. Ele aceitou prontamente, percebendo o cansaço no semblante de quem dirigiu muitas horas e estava em pé desde que chegou. Conversamos amenidades e rememoramos uma ou outra história dos tempos de escola. Estevão, então, firmou seus olhos marejados nos meus para dizer:

– Sabe cara, eu devo o melhor da minha existência à sua avó. Conheci a Laura na casa de vocês. Não sei se você vai lembrar, mas as aulas de piano dela eram depois das minhas e eu sempre arranjava um jeito de jogar conversa fora com você só para ficar mais um pouco e vê-la tocar. Não larguei do pé dela desde aquelas manhãs. Quando fiquei desempregado, resolvemos abrir um pequeno conservatório de música com o dinheiro da indenização. Lá se vão oito anos em funcionamento. As lições que a sua avó nos ensinou viraram nosso ofício e o sustento de nossos três filhos. Sua avó é a responsável pela minha família e pela minha profissão.

Eu gostava de repetir um bordão que ouvi certa vez de um guru da internet: sucesso é a quantidade de tempo que você passa fazendo o que ama.

Desde que sentou ao piano pela primeira vez, vovó não passou um dia sequer sem tocar suas partituras preferidas. Fez isso enquanto cuidava de toda a família e sem jamais deixar de lado sua fé. Vovó fazia apenas as coisas que amava fazer. Haveria, contudo, o mesmo sentido em fazer o que se gosta sem servir aos outros? Nada do que vi ou ouvi naquele dia poderia ter me marcado mais do que as palavras do Estevão. Ao fim e ao cabo, ainda existiam lições a serem transmitidas.

Jamais aprendi a tocar piano. Cogitei ficar com o instrumento e, quem sabe, corrigir essa lacuna. Concluí de imediato que seria uma ideia estúpida. Não havia tempo em minha agenda nem espaço em meu apartamento para a valiosa herança familiar. O sucesso que busquei na cidade grande falava outro idioma. Eu estava em paz com minhas escolhas.

Sem muita explicação, no entanto, procurei pelo terço da vovó logo que voltamos do cemitério. Ele ainda estava na mesma caixinha de louça, dentro da primeira gaveta da mesinha de cabeceira. Ali, diante dos meus, pedi para ficar com ele. Naquela noite aprendi a rezar o rosário, baixinho, aos pés da cama.  Um gesto que eu repetiria todos os dias ao longo dos próximos quarenta e três anos.