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Literatura

O nariz - Nikolai Gógol

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 31 de agosto de 2021
O nariz - Nikolai Gógol
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O nariz, ao lado de O capote e Avenida Niéviski, é uma das mais célebres narrativas do ciclo de São Petersburgo do escritor russo Nikolai Gógol (1809-1852).

Ao cortar o pão para o café da manhã, o barbeiro Ivan Yákovlievitch descobre um nariz humano dentro do miolo do alimento.

Sua esposa reage com fúria ao ocorrido e critica as habilidades profissionais do marido. Ivan, sem saber o que pensar, não tem certeza sobre o quão bêbado havia chegado em casa no dia anterior.

O barbeiro então reconhece que o nariz pertence ao assessor de colegiado Kovaliov, que ele barbeava todas as quartas e domingos.

A questão se impõe: o que fazer diante do ocorrido? Ivan embrulha o nariz em um trapo e sai de casa ainda ouvindo as ofensas da esposa.

O barbeiro decide atirar o nariz de uma ponte sobre o rio Nievá. Um policial observa a ação e questiona o que o barbeiro fazia ali parado na ponte. Não sabemos o fim da conversa entre os homens.

Na cena seguinte, acompanhamos o assessor Kovaliov acordar e perceber que no lugar onde antes havia um nariz em seu rosto estava agora inteiramente plano. O assessor que, em função de sua posição no serviço público, fazia questão de ser chamado de major, sai pelas ruas de São Petersburgo com o objetivo de ir até a casa do chefe de polícia.

Algo inexplicável acontece no caminho: uma carruagem parou na porta de um prédio e dela desceu um senhor. Kovaliov percebe com horror e supresa que o senhor era seu próprio nariz. Pelos trajes que usava, o nariz tornara-se um conselheiro de Estado, ou seja, um funcionário público de maior prestígio que o próprio Kovaliov.

O que se segue é uma perseguição pelas ruas de São Petersburgo com direito a uma conversa surreal entre o nariz e seu dono no interior da catedral de Kazan.

Diante do impasse entre procurar o chefe da polícia ou questionar formalmente a repartição na qual o nariz alegou trabalhar, Kovaliov encontra uma terceira opção: publicar um anúncio no jornal para que qualquer pessoa que encontrasse o nariz fujão pudesse devolvê-lo ao dono.

O jornal recusa publicar o anúncio incomum. Resta ao assessor procurar o comissário de polícia, que se preparava para “tirar sua soneca de duas horinhas”. O comissário recebe Kovaliov com bastante frieza e alega que nada pode fazer.

O major volta para casa abatido e reflete sobre as causas do ocorrido. Teria sido o episódio do nariz uma vingança da esposa de um oficial superior que queria casar sua filha com Kovaliov? Diante da negativa do major, teria ela contratado o barbeiro para decepar-lhe o nariz?

Passado algum tempo, um policial chega até a casa do assessor e dá a notícia que o nariz foi recuperado prestes a fugir para outra cidade. Kovaliov suborna o policial para ter o órgão devolvido imediatamente.

O dilema passa a ser então como restituir o nariz para o rosto de Kovaliov. As tentativas envolvem a visita de um médico e até uma carta para a tal esposa do oficial superior, que, obviamente, nada sabia sobre o assunto.

Os rumores sobre um nariz que circulava pelas ruas trajado como um funcionário público começam a se espahar pelas ruas de São Petersburgo.

Até que, assim como no início do conto, sem grandes explicações, o nariz reaparece no rosto de seu dono alguns dias depois.

Kovaliov retoma sua rotina, inclusive volta a frequentar o barbeiro Ivan Yákovlievitch para cuidar da aparência. O nariz, sem dar qualquer impressão que andara se ausentando, permanece para sempre no rosto do assessor de colegiado.

A divertida e inverossímil narrativa chega ao fim como um mosaico dos tipos e dos costumes da São Peterburgo da primeira metade do século XIX.

O que falta dizer:

O conto foi publicado pela primeira vez em 1836.

O humor e a leveza da prosa de Gógol não são gratuitos. Ao contrário, suas novelas e contos ambientados em São Pertersburgo são uma radiografia precisa das relações políticas e sociais da Rússia do Czar Nicolau I.

O episódio da perda do nariz é um artifício dramático usado com maestria por Gógol para analisar a personalidade de Kovaliov.

O major Kovaliov sonhava com um alto cargo na burocracia russa e para atingir seu objetivo precisava cuidar de sua aparência e de sua presença na sociedade. Como manter as aparências e frequentar a aristocracia sem uma parte tão importante do corpo?

O nariz ganha vida, torna-se o seu duplo e disputa com Kovaliov o seu prestígio social. Desse fato decorre a tensão da narrativa e a oportunidade de explorar os usos e costumes da sociedade.

“Agora eu vejo o que significa ser um escritor cômico. O mínimo indício de verdade e camadas inteiras se levantam contra você”, disse Gógol certa vez em uma carta a um amigo.

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