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Literatura

O homem que sabia javanês - Lima Barreto

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 15 de julho de 2021
O homem que sabia javanês - Lima Barreto
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O homem que sabia javanês é um conto de Lima Barreto, publicado originalmente no jornal carioca Gazeta da Tarde, em 1911.

Dois amigos, Castelo e Castro, conversam em uma confeitaria. Castelo conta “as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades para poder viver.”

Ou seja, trata-se de um malandro contando seus expedientes para escapar de uma vida convencional. “Só assim se pode viver… Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? “

Castelo conta ao amigo que já atendeu como feiticeiro e adivinho em Manaus, ocasião em que foi obrigado a esconder sua condição de bacharel para obter a confiança dos clientes.

O amigo questiona admirado como foi capaz de viver tantas aventuras “aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.” O malandro responde que aqui mesmo se podem arranjar belas páginas da vida, manda buscar outra garrafa e começa a contar o episódio central do conto: sua carreira como professor de javanês.

Castelo havia chegado havia pouco ao Rio e estava na pindaíba, sem saber como ganhar algum dinheiro, até que leu um anúncio no jornal:

“Precisa-se de um professor de língua javanesa.”

Respondeu ao anúncio, pensou que aquela seria uma colocação sem muitos concorrentes e correu para a biblioteca para descobrir o básico sobre Java e copiar o alfabeto da ilha.

Com a certeza de que não seria difícil aprender javanês, apresentou-se para a entrevista.

O contratante era o rico Barão de Jacuecanga, um ancião que precisava aprender o insólito idioma por conta de um juramento de família. O objetivo era compreender um livro deixado pelo avô, que por sua vez ganhou o exemplar de presente de um hindu em agradecimento a um serviço prestado. De acordo com a mitologia da família do Barão, era preciso compreender o livro para que a boa sorte passasse para as gerações futuras. Eis o motivo da busca por um professor.

Castelo foi contratado e os primeiros meses de aulas transcorreram apenas na tentativa de ensinar o alfabeto. O velho Barão de Jacuecanga aprendia e desaprendia. O professor até que tentou também ampliar seus conhecimentos do idioma malaio, porém também não obtinha sucesso.

Lá pelas tantas, o velho desistiu de aprender e disse que ficaria satisfeito se o professor apenas lhe traduzisse o enredo do livro. Castelo passou então a inventar histórias e contá-las como quem dominava o conteúdo da obra.

O malandro foi adotado pela família do Barão, que mais tarde indicou-o para a diplomacia.

O conhecimento de um idioma tão raro era o diferencial de Castelo, que mais uma vez dedicou-se ao estudo das línguas maleo-polinésicas; novamente sem sucesso.

Ocorre que a sociedade de aparências e mentalidade provinciana acolheu o “intelectual”. O homem que sabia javanês subiu na carreira, escreveu para jornais, foi consultado por gramáticos e representou o Brasil no exterior.

No fim do relato, Castelo diz ao amigo que se não estivesse tão feliz na carreira diplomática tentaria a vida como eminente bacteriologista.

O homem que sabia javanês é a perfeita alegoria do jeitinho brasileiro e do nosso provincianismo.

O que falta dizer:

Lima Barreto é um autor irregular, soando autorreferente e excessivamente panfletário em muitos momentos de sua obra, mas acerta no tom irônico e bem-humorado em O homem que sabia javanês. O conto é uma bela sátira aos jogos de poder baseados em aparências, aos resquícios decadentes de uma elite imperial e ao falso intelectualismo tão admirado pelos brasileiros.

Lima Barreto era sabidamente um admirador dos escritores russos. Percebi na releitura de O homem que sabia javanês alguns ecos dos contos de Gógol, quando este retratou os costumes dominantes na Rússia do Czar Nicolau I em contos como O Capote e O Nariz.

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