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Autoral

O homem do crachá

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 15 de outubro de 2021
O homem do crachá
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Revirou a gaveta da escrivaninha em busca de um daqueles documentos que guardamos sem saber se terá serventia e que nunca é encontrado quando, enfim, precisamos dele. Encontrou, no entanto, o seu velho crachá da firma. Era um encontro inesperado com seu eu do passado.

Não se reconheceu naquela imagem. Doze quilos a mais, rosto amarelado, olheiras profundas e um ar de tristeza que nem as proporções ínfimas de uma fotografia 3×4 conseguiam ocultar.

O homem do crachá suportou por tempo demais o peso das escolhas erradas que fez e de todo desamor que experimentou ao longo da vida. Ele ainda não sabia, mas a melancolia que carregava na alma iria eclodir dali a pouco. Diagnósticos, cirurgias, tratamentos e consultas fariam parte do seu dia-a-dia durante muito tempo. As feridas emocionais, essas doíam ainda mais que as enfermidades do corpo e levariam mais tempo para cicatrizar. As dores do corpo e do espírito impuseram um hiato na sua biografia.

Não seria fácil passar por tudo aquilo, mas a jornada resultaria nas bases de uma existência fundamentada em outros valores.  A construção lenta e gradual de uma vida com significado. Uma jornada ainda incompleta e que, talvez, jamais se completará.

Cinco anos intensos e transformadores separavam o homem do crachá e seu observador. Se pudesse dizer algo como alento, diria o observador que nos instantes de maior sofrimento, nos dias mais confusos com as noites mais escuras, o homem do crachá encontraria o amor.

Sentiu um respeito profundo pelo homem que foi e pelo homem que se tornou enquanto olhava aquela fotografia.

No quarto ao lado, era possível ouvir, a esposa lia uma história para o seu filho pequeno. O menino ouvia as palavras da mãe, enquanto ria e tirava todos os brinquedos do lugar. Eram assim as manhãs hoje em dia.

Sentou-se em frente ao computador para trabalhar em seus novos projetos, fechou os olhos, rezou uma Ave Maria e agradeceu mais uma vez.

Já viveu o suficiente para saber que outros sofrimentos virão. Sabe que irá suportá-los com a dignidade de sempre. Diferente de antes, porém, seu espírito está em paz.

O homem do crachá pode repousar tranquilo no  fundo da gaveta, pois agora não lhe falta o essencial.