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Literatura

O Estrangeiro - Albert Camus

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 24 de maio de 2021
O Estrangeiro - Albert Camus
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Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O primeiro parágrafo de O Estrangeiro, romance de Albert Camus, publicado em 1942, é um clássico da literatura, que provoca o leitor a refletir sobre o absurdo da vida a partir do relato em primeira pessoa do protagonista Mersault.

A trajetória de Mersault reflete uma existência movida por experiências sensoriais e desprovida de consciência ou objetivos. O Estrangeiro é, acima de tudo, uma obra sobre a indiferença (do personagem em relação à existência e do universo em relação ao ser humano).

Tudo isso está lá, exposto no primeiro parágrafo do livro.

Camus te faz morder o anzol já nas primeiras frases da obra. A partir desse ponto, você estará curioso para saber mais sobre o protagonista e descobrir para onde ele conduzirá você. É exatamente esta a função do início de uma narrativa: instigar. Há algo errado com aquele homem, algo incoerente, mas não sabemos bem o que é.

Percebemos a indiferença de Mersault, sobretudo em suas interações com os outros personagens. Sempre que lhe fazem uma pergunta de maior profundidade, ele responde algo banal. É assim com o dono do restaurante, com seu chefe no trabalho e com Salamanco, o vizinho que parece com seu cão sarnento.

Quando o gestor cogita indicá-lo para uma promoção em Paris ou quando Marie Cardona, a ex-colega de trabalho com quem Mersault se relaciona, a resposta é a mesma: tanto faz. Mersault é alguém que cumpre com as obrigações de uma existência banal, porém suas experiências não despertam qualquer sentimento ou compreensão mais profunda da vida. Ele é um escravo dos impulsos e sensações mais básicas.

É a partir desses relacionamentos superficiais já citados que um personagem-chave entra na história: Raymond, o vizinho cafetão. Primeiro Mersault aceita escrever uma carta para atrair uma mulher que acaba agredida por Raymond em seu apartamento. Na sequência do episódio de violência, Mersault aceita depor em favor do vizinho agressor.

Em retribuição ao depoimento favorável, o vizinho proxeneta convida Mersault e a namorada para um fim de semana na praia. Durante o passeio, o irmão da mulher agredida e seus amigos, todos árabes, aparecem na trama. Eles estão atrás de Raymond para vingar a agressão. Mersault participa de uma briga na praia. Fica incomodado com o ambiente da casa após a confusão e volta a caminhar na areia, dessa vez sozinho e armado. No segundo passeio, reencontra o árabe, que está com uma faca. Mersault dá cinco tiros no homem.

A primeira parte do livro termina com o relato de Mersault diante dos fatos:

“Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.”

O estrangeiro se tornou um assassino por conta de um assunto que não lhe dizia respeito, matou com um revólver que não lhe pertencia, mas nada fez para evitar o curso dos acontecimentos.

Albert Camus
Albert Camus

A segunda parte do livro gira em torno do processo e do julgamento de Mersault. Encontramos um Mersault encarcerado já na primeira frase do segmento.

A personalidade do estrangeiro passa a ser o foco. A história do crime é repetida inúmeras vezes pelo réu. À certa altura, ele declara ao defensor público escalado para representá-lo: “Expliquei-lhe no entanto que meu temperamento era este – meus impulsos físicos perturbavam com frequência os meus sentimentos.”

As reações de Mersault ao falecimento da mãe são minuciosamente debatidas pela defesa e acusação: “Senhores jurados, no dia seguinte à morte de sua mãe, este homem tomava banho de mar, iniciava um relacionamento irregular e ia rir diante de um filme cômico.”

Mersault não intervinha. De algum modo, as ações se desenrolavam sem a sua intervenção ou participação. Ele não percebe, mas isso reflete a forma como lidou com o próprio destino durante a sua existência.

Nem mesmo as consequências do julgamento, fez o criminoso examinar a própria consciência. Até seu medo é indiferente. Mersault é um homem que não se arrependeu.

O que falta dizer

Qualquer comentário sobre O Estrangeiro será insuficiente para a quantidade de camadas que o enredo nos apresenta. Sequer vou comentar toda a questão filosófica do absurdo da condição humana, tão bem abordada por Sartre em “A explicação de O Estrangeiro” e pelo próprio Camus em seu ensaio “O Mito de Sísifo”, obra que pretendo comentar oportunamente.

A trama se passa na Argélia, ainda uma colônia francesa na época. Esse é um dado relevante para compreender a importância simbólica atribuída ao sol no enredo. O calor é um dado fundamental nos principais momentos da narrativa afeta o comportamento dos personagens, numa referência indireta às mitologias antigas.

A prosa de Camus é simples, límpida, sem qualquer traço de afetação. Tudo fica impressionante quando percebemos que Camus usa dessa simplicidade estilística para tratar de aspectos profundos da condição humana.

Qualquer um que almeje ser escritor precisa atentar também para o encadeamento dos fatos. O enredo é muito bem amarrado, não há nenhuma informação gratuita, nenhuma vírgula sobrando ou faltando. Tudo é intencional, profundo e simples.

O Estrangeiro é uma obra sobre um mundo desprovido de sentido, exceto aquele que o próprio indivíduo resolve atribuir àquilo que lhe acontece.

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