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Literatura

O escritor e o mito

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 6 de agosto de 2021
O escritor e o mito
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Todo escritor ou aspirante a escritor deveria estudar com seriedade as diferentes mitologias humanas. Para quem se animar com meu conselho, duas sugestões: (1) dissocie esse aprendizado das suas convicções religiosas; (2) a obra do norte-americano Joseph Campbell é a porta de entrada mais didática.

Campbell foi uma das maiores autoridades no campo da mitologia no século XX. Ele sintetizou e popularizou, só para ilustrar com um exemplo consagrado, a estrutura mítica que profissionais criativos do mundo inteiro conhecem hoje em dia como “a jornada do herói”. Vale ressaltar, no entanto, que as contribuições de Campbell nos estudos de mitologia comparada vão muito além disso.

As pesquisas de Campbell constatam a presença dos mesmos temas em culturas que não mantiveram contato entre si. O dilúvio, o roubo do fogo, o mundo dos mortos, nascimentos de uma mãe virgem, as provações que testam a determinação do herói, a morte e inesperada ressurreição do herói são temas frequentes em diferentes tradições humanas. Para Campbell, o deslocamento dos povos em busca de melhores condições de vida resultou no sincretismo e na superposição de mitos ao longo de diferentes períodos históricos. Esse sincretismo confirmaria a tese da unidade da raça humana, não apenas em termos biológicos, mas também na sua história espiritual.

Mitos são o fundamento da literatura, da filosofia e de todas as ciências humanas. Seres humanos contam e recontam as mesmas histórias ao longo de suas existências na terra.

Em uma de sua mais famosas entrevistas, pouco antes de morrer, Campbell declarou ao jornalista Bill Moyers:

Um de nossos problemas, hoje em dia, é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento.

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser  e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.

Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Por conta disso, reforço minha sugestão de que o estudo do mito é matéria fundamental para todos aqueles que almejam criar, escrever e contar suas próprias histórias.

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