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Literatura

O deserto dos tártaros - Dino Buzzati

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 6 de abril de 2021
O deserto dos tártaros - Dino Buzzati
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O deserto dos tártaros foi originalmente publicado em 1940 e é considerada a obra-prima do escritor italiano Dino Buzzati.  O autor, que também era jornalista, trabalhou no Jornal Corriere dela Sera no turno da noite entre 1933 e 1939. A inspiração para o livro teria vindo dessa época.  Segundo Buzatti, “era um trabalho monótono e aborrecido, e os meses passavam, e passavam os anos, e eu me perguntava se seria sempre assim, se as esperanças, os sonhos, inevitáveis quando se é jovem, iriam se atrofiar pouco a pouco, se a grande ocasião viria ou não”.

A obra conta a história do jovem tenente Giovanni Drogo, que ao deixar a academia militar é designado para servir na Fortaleza Bastiani, localizada ao norte em uma região fronteiriça quase esquecida. Conta-se que há muito tempo a guarnição era uma importante defesa contra as invasões dos tártaros, que chegavam pelo enorme deserto localizado para além de suas muralhas. Há muitos anos, no entanto, não há movimentação ou sinal de vida na região. Não existem inimigos ou ameaças reais, mas a expectativa permanente de uma nova invasão predomina entre os habitantes do forte. Todos anseiam estar preparados para a volta dos tártaros e pela oportunidade de defender o seu povo em uma batalha. Uma guerra para justificar a existência do guerreiro.

Ocorre que não há qualquer sinal de ameaça, nem dos tártaros nem de ninguém.  A vida transcorre entre rotinas operacionais e atividades destituídas de qualquer heroísmo.

Logo no início da narrativa, percebemos que a fortaleza é um lugar isolado e desligado da sociedade. O jovem tenente não sabia ao certo onde ficava seu destino, nem o amigo que cavalgava ao seu lado no início da viagem, tampouco o carroceiro para quem ele pede informação.  Giovanni dorme ao relento e somente no dia seguinte encontra o capitão Ortiz, que também cavalgava em direção à uma Bastiani “quase inacessível, separada do mundo”.  O capitão Ortiz comenta que ali é uma região de fronteira morta, que o forte permanece como há um século, que não há povoados vizinhos, que a ameaça dos tártaros é como uma lenda antiga e que ninguém deve ter passado por lá nas guerras passadas. Drogo continua a cavalgar em silêncio “com o coração repentinamente oprimido”.

Giovanni Drogo avista o Forte fincado entre altas escarpas e descobre que fora designado para um lugar onde as pessoas iam a pedido. Seu primeiro impulso ao se apresentar ao serviço é pedir para retornar. Ao manifestar sua vontade aos superiores é informado que poderia conseguir isso imediatamente se passando por doente e obtendo um atestado médico ou poderia esperar quatro meses até a inspeção de rotina.

O tenente decide esperar e assume suas funções no dia-a-dia do forte. Uma rotina medíocre, porém estranhamente fascinante. Passados os quatro meses, Drogo decide ficar mais dois anos bem no momento em que assinaria seu pedido de retorno. Ele ainda não sabe, mas já rompeu com sua existência anterior e está preso ao lugar.

A vida na fortaleza é uma longa espera pelo momento derradeiro que justifique toda a existência. Todos anseiam pela guerra que redimirá os que ali aguardam passivamente. Desde os oficiais mais antigos até o velho alfaiate, o Sargento Prosdoscimo, os residentes da fortaleza convivem com a vontade de partir e o desejo de estarem prontos quando chegar a hora da batalha. Assim passam os anos sem que nada aconteça. Esse é o fascínio que a fortaleza exerce nas almas dos soldados cujo destino é vigiar o deserto dos tártaros.

A Fortaleza é um estado de espírito composto de hábitos arraigados, das formalidades da vida militar, da imensidão da paisagem e da ilusão da aventura que virá.  Uma teia de sensações que aprisiona a alma daqueles homens.

Em um segundo momento da narrativa, passaram-se alguns anos e Giovanni Drogo já incorporou totalmente os usos e costumes da Bastiani. Ele entrará em contato com outra dimensão da realidade na Fortaleza: a morte.

Na primeira vez, o oficial prestava serviço em um posto avançado mais próximo do deserto, de nome Reduto Novo, quando surge o vulto de um cavalo perdido. O soldado Lazzari, sentinela também em serviço, julga ser o seu animal e burla os procedimentos para tentar resgatá-lo. Quando retorna, o turno já havia mudado. Havia uma nova senha que ele desconhecia e, apesar de ser reconhecido por todos, foi executado por um amigo sentinela que não ousou desobedecer às normas. Morreu há poucos metros da entrada sob o olhar de vários soldados e oficiais.

Pouco tempo depois, pequenas tropas são avistadas nas imediações da Fortaleza, uma tensão beligerante toma conta da tropa, todos se preparam, enfim para a guerra. Um mensageiro do Estado Maior desfaz as expectativas, anunciando ser um trabalho simples de demarcação de fronteiras. Para dissipar a frustração, um destacamento é enviado até a crista dos morros para tentar realizar o serviço de colocação de marcos divisórios antes das tropas forasteiras. Na missão, o tenente Angustina, homem de saúde frágil e usando equipamentos inadequados, não resistirá às condições ambientais desfavoráveis somadas à sua própria obstinação de completar a missão. A morte de Angustina, com quem tinha afinidade, afeta suas convicções e faz com que Giovanni Drogo decida ir até a cidade para solicitar sua transferência.

O pedido de baixa dos serviços do Forte resulta em frustração. Drogo é informado que uma reestruturação estava em curso, que o contingente seria reduzido pela metade e os oficiais mais antigos já sabiam quem seriam os transferidos.  O sentimento é de injustiça e decepção. Na mesma visita à cidade, Drogo reencontra Maria Vescovi, uma antiga namorada. No encontro, ambos reprimem seus impulsos e não são mais capazes de declarar seus sentimentos. No fim se despedem cordialmente com a certeza de que aquele seria o último encontro do casal. Giovanni Drogo enfrenta seus fracassos individuais.

No retorno ao forte, começa o terço final da história. O tempo avança em longos intervalos. Ao todo acompanhamos o avanço de três décadas.  Caminhamos para a resolução da narrativa.

Acompanhamos a partida de metade da tropa e a nova realidade de uma fortaleza quase deserta. Depois desse episódio, em uma noite qualquer, o tenente Simeoni avista com sua luneta pontos luminosos que se movimentam em regiões ermas do deserto. A hipótese é de que uma estrada está sendo construída e ambos começam a alimentar novamente a expectativa da guerra.

A narrativa avança lenta e a esperança se esvai, embora as luzes continuem sendo observadas cada vez mais próximas. Acompanhamos o declínio da Fortaleza Bastiani e dos seus habitantes.

Décadas transcorrem até o episódio derradeiro. Surge um Giovanni Drogo com cinquenta e quatro anos e saúde debilitada. Ele é o subcomandante do Forte.  O improvável acontece: a estrada está quase pronta e surgem do deserto batalhões inimigos prontos para a guerra. Giovanni Drogo se anima com a perspectiva de viver seu destino heróico, roga a Deus pela sua saúde, porém está quase inválido. Nessa hora, o comandante Simeoni ordena que ele parta, pois precisa do seu aposento para abrigar os novos soldados que chegarão como reforço.

O oficial desce o vale doente em uma carruagem enquanto os soldados se preparam para finalmente lutar.

A amargura e o desespero tomam conta de Drogo e ele resolve passar  a noite em uma hospedaria. Ali, sozinho, vive sua experiência derradeira e uma reflexão profunda sobre a morte, sobre o tempo, sobre honra e sobre esperança.

O que falta dizer

Tempo e espaço em O deserto dos tártaros são indefinidos, uma característica comum das fábulas. Nomes, objetos e descrições são recursos utilizados para reforçar a imprecisão.

O deserto dos tártaros fala da passividade diante da vida. Uma postura inerte, que aceita as coisas como são na esperança de que algo grandioso acontecerá em futuro incerto. Esse acontecimento  grandioso justificará a própria existência.

A narrativa parece propositalmente arrasada em alguns trechos. Em outros, o autor evoca um clima de suspense acerca dos próximos acontecimentos: chegarão os inimigos, Giovanni Drogo romperá com a vida no Forte?

A metáfora militarista é uma escolha acertada, pois de certa forma reflete o auge da burocracia e da vida regrada por procedimentos.

É possível traçar um paralelo com o roteiro de vida do trabalhador da sociedade do século XX e início do XXI: estude, tire boas notas, entre em uma boa faculdade, passe em um bom concurso ou arrume um bom emprego, faça uma pós-graduação, financie um apartamento, forme uma família e, enfim, curta a vida na aposentadoria. Esse, afinal, é ou não é o pensamento médio vigente ainda nos dias de hoje?

Vale lembrar que sempre temos escolha.

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