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Literatura

O capote - Nikolai Gógol

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 15 de junho de 2021
O capote - Nikolai Gógol
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Nikolai Gógol é considerado por muitos o primeiro grande nome da literatura em prosa da Rússia. O escritor nasceu na Ucrânia em 1809, em uma região que fazia parte do Império Russo da Época.

Em 1929, o jovem Gógol mudou-se para São Petersburgo, onde conseguiria um emprego modesto em uma repartição pública e se tornaria amigo de Aleksandr Púchkin, o outro grande escritor russo do início do século XIX. Gógol e Púchkin são os pais fundadores da literatura russa como nós a conhecemos.

Há uma famosa frase – atribuída, porém nunca escrita por Dostoiévski -, que caracteriza a importância de Gógol para a literatura russa: “Todos nós saímos do capote de Gógol”. Tchékhov, considerava Gógol o maior escritor russo, e disse: “Como é incomparável e como é forte Gógol, e que artista ele é”.

Dois aspectos são fundamentais na obra de Gógol: a vida dos pequenos funcionários públicos de São Petersburgo, imersos em burocracia, aparências e tribulações financeiras; e os temas da sociedade rural e seus mitos, que remontam a sua origem ucraniana e flertam com a tradição das fábulas russas e com o realismo fantástico.

A obra mais representativas da literatura urbana de Gógol é o conto O Capote, o mesmo que motivou a citação de Dostoiévski. Publicado em 1842, o conto se tornaria uma das narrativas breves mais famosas da literatura universal.

Em O Capote, acompanhamos a trajetória de Akáki Akákievitch, o herói que representa o arquétipo do pequeno funcionário público.

O personagem é apresentado como conselheiro titular de um departamento indefinido. Trata-se de uma função de pouco prestígio na hierarquia do serviço público russo. Por isso, Akáki vive em condições de extrema pobreza.

Os superiores o tratam com frieza e os colegas zombam de seus modos, de seu jeito de falar e de suas roupas. O narrador usa a perplexidade de um jovem funcionário ao assistir o achincalhe frequente do qual Akáki Akákievitch é vítima para refletir:

“E mais tarde, muitas vezes em sua vida ele estremeceria ao perceber o quanto há de desumano no ser humano, quanta grosseria feroz existe em um ambiente culto, requintado e, meu Deus!, até naquelas pessoas que a sociedade reconhece como nobres e honradas.”

Nikolai Gógol

Um conselheiro titular é uma espécie de escrevente, cuja responsabilidade é transcrever documentos. Akáki não escreve nada original, apenas reproduz a papelada que depositam em sua mesa.

Akáki Akákievitch vivia uma vida solitária, sem prazeres ou realizações. Seu deleite era levar trabalho para casa e realizar mais algumas cópias antes de dormir.

Com a chegada do rigoroso inverno de São Petersburgo, o conselheiro titular percebe que seu velho capote, que os colegas do trabalho apelidaram de roupão, estava com os forros e os tecidos danificados.

Ele até tentou convencer o alfaiate Pietróvitch a reparar a peça de estimação, mas não havia remendo possível. O caso era mesmo de encomendar um novo.

A conversa com o alfaiate revela um aspecto importante da personalidade do protagonista:

“É bom esclarecer que Akáki Akákievitch se expressava o mais das vezes através de preposições, advérbios e, por fim, de partículas que não significam terminantemente nada. Se a questão era muito complicada, ele tinha até o hábito de nunca terminar a frase: ‘Palavra, é isso mesmo…aquilo…’, depois não acrescentava nada e acabava esquecendo, por achar que já havia dito tudo.”

A insistência de Akáki de nada adiantou, o alfaiate estava irredutível e, por fim, a encomenda de um novo capote foi feita. A nova peça de roupa custou todas as economias do funcionário somadas a meses de privações para acumular o restante da quantia.

O dia da entrega do novo capote foi provavelmente “o dia mais solene e feliz da vida de Akáki Akákievitch”. Tanto o proprietário quanto o alfaiate consideraram o novo capote uma obra-prima. Os colegas de repartição cumprimentaram Akáki pela elegância do novo agasalho e o subchefe da repartição, observando o clima festivo, convidou a todos para um chá em sua casa. Akáki Akákievitch quis fugir do convite, mas todos disseram que seria falta de cortesia, já que ele era o motivo do evento.

Encontrou os colegas, jantou e resolveu voltar para casa quando percebeu que já passava da meia noite. Caminhava de volta para casa, num alegre estado de espírito, quando foi abordado por ladrões que lhe roubaram o capote.

A polícia nada fez e a história do roubo comoveu os colegas de repartição. Um dos colegas sugeriu que Akáki procurasse um certo figurão que tinha poderes para fazer o assunto caminhar com mais chances de êxito. O figurão usou o pedido como pretexto para demonstrar poder e humilhou Akáki.

Ainda atordoado, Akáki Akákievitch saiu pelas ruas em meio a uma nevasca, que iria lhe adoecer e ser a causa de sua morte alguns dias depois. Akáki foi enterrado quase como um indigente.

Mas este ainda não seria o fim da história. Dias depois, começaram os rumores sobre um fantasma que vagava pelas ruas de São Petersburgo à procura de um capote. Um fantasma que gelava as costas e os ombros de funcionários públicos, amedrontava os guardas da cidade e que, por fim, tomou o capote do figurão que havia lhe destratado. Dessa vez, aterrorizado, o figurão nada pode fazer.

Depois do acerto de contas, perto da ponte Óbukhov, o fantasma desapareceu por completo na escuridão da noite.

O que falta dizer:

O estilo de Gógol mescla humor, melancolia, aspectos mitológicos e lirismo. A prosa do autor é muito agradável de ler.

Paulo Bezerra, tradutor da versão publicada pela Editora 34, salienta que o nome do personagem central, Akáki Akákievitch, traduz a essência de sua personalidade. A repetição silábica, um exercício de gagueira, reproduz a falta de articulação do discurso e a imprecisão da comunicação de Akáki. Boris Eikhenbaun, crítico literário e legítimo representante do formalismo russo, também chamou a atenção para o papel dos jogos de palavras e sons na obra de Gógol ainda no século XIX: o nome Akáki Akákievitch soa como um apelido (inclusive, a expressão “kaka” em russo tem significado parecido com “caca” em Português), o que reforça a insignificância do personagem no panorama social em que a narrativa acontece.

Há dois momentos em que o protagonista tenta se valer da linguagem para persuadir alguém: primeiro para tentar convencer o alfaiate de reformar seu capote mais uma vez e, assim, não precisar de um novo; depois, quando tenta pedir ao figurão para que interceda a seu favor junto ao chefe de polícia. Os resultados são pífios em ambos os episódios. A incapacidade de comunicação simboliza, sobretudo, o isolamento social do personagem.

O retorno como fantasma para perturbar o sossego daqueles que o oprimiam representa o renascimento de sua personalidade. O renascimento do herói tão comum em várias mitologias. Apenas depois da morte, Akáki Akákievitch ganhou a coragem que não teve em vida para se vingar daqueles que lhe fizeram mal ou lhe negaram ajuda.

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