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Escrita Criativa

A quebra da rotina na narrativa

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 24 de junho de 2021
A quebra da rotina na narrativa
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Boas histórias envolvem o compartilhamento de emoções e tornam-se inesquecíveis quando tratam de questões fundamentais para todos os seres humanos. Alfred Hitchcock, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, que fez filmes como Psicose e Os Pássaros, definiu uma boa história como “a vida sem as partes maçantes.”

É o encontro significativo entre seres humanos que dá origem às histórias. Esses encontros significativos ocorrem, na maior parte das vezes, quando a rotina é quebrada.

Pense em um almoço de domingo na casa da sua avó, daqueles com toda família reunida; imagine uma confraternização após um dia cansativo no trabalho; ou, quem sabe, um reencontro da sua turma de faculdade. Que tipo de histórias as pessoas contam em ocasiões como essas?

Dificilmente alguém falará sobre o dia em que acordou com o alarme do telefone, escovou os dentes, tomou um café apressado, participou de três reuniões no trabalho, pegou trânsito na volta para casa, jantou, viu algum seriado na TV e dormiu. Por que isso acontece? Porque são situações rotineiras da vida. Contar aquilo que acontece mais ou menos da mesma forma para a maioria das outras pessoas pode tornar uma narrativa maçante.

Boas histórias envolvem a quebra dessa rotina: um pneu furado, alguém demitido em plena reunião por um chefe furioso, uma dor de barriga no meio do engarrafamento, o entregador que comeu sua comida, o pesadelo horrível que você teve em função do episódio final da segunda temporada do seriado que todos estão assistindo, uma viagem, um conflito, uma transformação. Prestamos atenção em narrativas sobre acontecimentos extraordinários.

Quando J.R.R Tolkien criou Frodo Bolseiro, o protagonista da trilogia O Senhor dos Anéis, deu a ele uma missão: destruir o “um anel” e salvar a Terra Média das forças do mal.

Imagine se, ao mesmo tempo, Frodo estivesse preocupado em aproveitar o tempo que passará fora de casa para programar uma reforma em sua toca de Hobbit, ou se fosse retratado colocando seus boletos em débito automático antes de sair para a aventura ou, ainda, marcasse uma consulta com sua nutricionista para manter uma dieta saudável ao longo da jornada.

Um clássico da literatura de fantasia viraria uma chatice.

Na maior parte das mitologias humanas, a aventura começa quando o herói caminha para fora do seu mundo comum. É justamente o contraste entre aquilo que é típico e as experiências desconhecidas que arremessam o leitor, ouvinte ou interlocutor direto para dentro da sua narrativa.

Mesmo os cronistas, especialistas em narrar as questões cotidianas, buscam sempre um olhar peculiar acerca dos acontecimentos corriqueiros. Não se trata da simples descrição de acontecimentos banais. A crônica revela a beleza e o inusitado daquilo que passa despercebido aos olhos da maioria de nós.

Quer contar bem uma história? Identifique onde estão as motivações, os sentimentos e os valores fundamentais de alguém. Depois apenas narre o que essa pessoa fará movida por essas questões essenciais.

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