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Literatura

A metamorfose - Franz Kafka

Kaio Serrate
Escrito por Kaio Serrate em 27 de março de 2021
A metamorfose - Franz Kafka
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Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso.

Que primeira frase, senhoras e senhores! Este é um dos inícios mais impactantes de toda a literatura ocidental.

Eis os meus comentários acerca de A metamorfose, obra essencial de Franz Kafka.

Sobre a obra

No dia 7 de dezembro de 1912, Franz Kafka escreveu à sua noiva, Felice Bauer: “Minha pequena história está terminada”. O autor tinha 29 anos, a obra foi escrita em vinte dias e se tornaria um dos textos literários mais importantes do século XX.

A metamorfose foi publicada pela primeira vez em 1915, ou seja, foi uma das poucas obras de Kafka publicadas em vida e acabou se tornando o texto mais conhecido e citado do autor.

A novela conta a história de Gregor Samsa, um caixeiro viajante, arrimo de família, que em uma manhã como outra qualquer acorda transformado em um inseto monstruoso. As descrições não são conclusivas, mas levam o leitor a imaginar algo muito próximo a uma barata gigante. O autor, no entanto, não classifica o inseto e deixa a figura do personagem central aberta a interpretações.

A metamorfose de Gregor Samsa é o gatilho para tratar de maneira profunda sobre as relações humanas e sobre as angústias do mundo moderno.

O leitor acompanha os esforços de Gregor para sobreviver e compreender sua nova condição e as reações de sua família, formada pelo Sr. e Sra. Samsa e por sua irmã Grete, diante do ocorrido.

Cada um dos três capítulos da curta novela coloca luz sobre um dos aspectos essenciais da narrativa. É uma perspectiva pouco comentada, por isso trago esse olhar pessoal: a novela tem três momentos distintos muito bem construídos por Kafka.

Antes, porém, cabe dizer o fundamental:

A metamorfose não é uma narrativa fantástica, é uma história sobre relações familiares.

Capítulo I

No primeiro capítulo assistimos Gregor tentando levantar da cama e entender o funcionamento do seu novo corpo de inseto.

Ele ainda tentava entender o que lhe aconteceu e o gerente da empresa onde trabalhava chega em sua casa para questionar seu atraso. O narrador reflete: Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos.

Tanto o gerente quanto à família Samsa evocam um olhar utilitarista da vida. Gregor é, acima de tudo, um trabalhador, uma peça na engrenagem da firma e aquele que sustenta a família.

Exceto por uma tímida reação da mãe, ninguém demonstra preocupação com a saúde de Gregor. O caixeiro viajante importa na medida do que ele é capaz de produzir, trabalha para saldar dívidas antigas do pai e sustentar a família. A família e o chefe estão preocupados que Gregor saia da cama para trabalhar. Apenas isso.

O capítulo chega ao fim, a porta se abre todos veem a nova condição de Gregor Samsa. O gerente foge. Há a certeza de que ele jamais voltará a trabalhar.

Capítulo II

O segundo capítulo trata da adaptação da família a uma nova condição. O pai é mostrado como um homem saudável, porém precocemente acomodado, após uma falência ocorrida há cinco anos. A mãe, dona de casa, sofre de asma e é retratada como uma mulher de personalidade frágil. A irmã caçula vive uma vida pequeno burguesa, veste-se bem, ajuda nas tarefas da casa, participa de diversões modestas e, acima de tudo, toca seu violino. Gregor juntava mais dinheiro para pagar os estudos da irmã no conservatório. Daria a notícia no Natal.

Acompanhamos o desmonte do seu quarto, o horror da mãe ao ver o filho e o pai que tenta matar o inseto ao ver a esposa desmaiada.

Os únicos momentos de humanidade vêm da irmã Grete que tenta alimentar Gregor com restos de comida e mantém o quarto minimamente organizado nas primeiras semanas.

Capítulo III

No último capítulo a presença de Gregor começa a ser superada. Embora o pai tenha voltado a trabalhar, aparentemente em um banco, a família vive dificuldades financeiras, vende as joias da mãe, corta custos e admite três inquilinos no apartamento.

O sentimento é de falta de esperança. A família vive a sensação de que foram atingidos por uma desgraça maior do que todos os parentes e amigos já viveram.

A irmã se sente saturada pelos cuidados com o irmão, deixa a sujeira acumular e começa a se referir a Gregor com repugnância e ressentimento.

Uma nova nova faxineira aparece na história. Ela não teme Gregor. O dado novo é que, por não ter qualquer vínculo anterior com o personagem central, ela enxerga Gregor apenas como um inseto asqueroso e refere-se a ele como “velho bicho sujo”.

O conflito escala em um momento em que Grete toca seu violino para os inquilinos na sala da família. Enquanto os três homens ignoram a música da irmã caçula, presenciamos o último momento de emoção de Gregor Samsa, que tocado pela música sai do quarto em que vivia confinado e provoca uma confusão envolvendo a família e os estranhos.

O episódio marca a ruptura definitiva com a humanidade de Gregor, quando a irmã sugere que a família precisa se livrar dele.

– É preciso que isso vá para fora – exclamou a irmã. É o único meio, pai. Você simplesmente precisa se livrar do pensamento de que é Gregor. Nossa verdadeira infelicidade é termos acreditado nisso até agora.

O personagem central perde o que restava de sua humanidade nesse instante.

Depois acompanhamos a melancólica morte por inanição do homem inseto e a reação de alívio dos familiares. A faxineira se livra dos corpo do inseto e a família Samsa decide dedicar um dia ao repouso e ao passeio.

O estilo de Kafka

Em A metamorfose, a narrativa não caminha para o auge, ela se inicia com ele. A novela se desenvolve a partir das decorrências de um fato fundamental e não a partir de uma progressão que caminha até ele.

Outro fato que merece atenção é o foco narrativo. Após tratar o absurdo de modo trivial, inserindo um elemento fantástico logo no primeiro parágrafo, o restante da narrativa é realista, quase burocrático. Isso se choca o tempo todo com o absurdo da história narrada e, por esse motivo, causa estranhamento.

Há uma sutileza de perspectiva, estamos o tempo todo acompanhado a trama na perspectiva do personagem central, mas a história não é narrada em primeira pessoa. Essa escolha dá o tom impessoal e garante o estranhamento, o narrador se comporta como uma câmera de cinema na cabeça do personagem, mas não interfere nem emite juízos. A linguagem impessoal seria inadequada se partisse diretamente de um eu que estivesse na situação angustiante do protagonista. A atmosfera opressiva que permeia toda a obra vem do conflito central, mas também é construída pelo tom impessoal do narrador.

Outro ponto que cabe ressaltar é que a metamorfose não é metafórica como alguns podem interpretar. Não acompanhamos uma alucinação do protagonista nem uma alegoria proposta pelo autor. Os fatos narrados são reforçados pela atitude dos demais personagens, trata-se de um inseto real e não mais de um homem chamado Gregor. Isso é uma característica da obra de Kafka. O autor trabalha com o deslocamento de sentidos. Insere o absurdo no que é rotineiro para potencializar sua denúncia em relação a loucura do mundo. Kafka utiliza seus recursos para expor as incoerências e as relações desumanas do mundo civilizado e racional.

Comentários em vídeo

Kafka era uma personalidade complexa e manifestou essa complexidade em toda sua obra. A leitura dos seus escritos permite muitas chaves de interpretação, nenhuma delas banal.

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